sexta-feira, 24 de agosto de 2012

ProUni vs Filhinho(a) do papai.





Fiquei comovido com esta crônica do William Rodrigues, que é amigo de uma amiga no Facebook. Eu também faço Direito e não consigo dormir pensando no que fazer para sair do meu emprego, fazer estágio e pagar as contas. Parabéns garoto. Me sinto representado.


[CRÔNICA] A OLIGARQUIA, O DIREITO E AS BANCAS

É madrugada, e Elano Silva permanece acordado, envolto em apostilas e cópias de livros – a alternativa de quem não pode pagar pelos caros livros da Faculdade de Direito. Daqui poucas horas estará saindo porta a fora, para enfrentar mais uma jornada em busca de uma vida melhor daquela que teve até aqui. Dois ônibus, transito, faculdade, metro, trabalho
, metro, dois ônibus, casa, jantar e estudar madrugada a dentro. Essa é a cotidiana e estafante rotina de um ProUnista suburbano, que mora longe do Centro, sem carro nem moto. Dia após dia, semestre a semestre. Aluno exemplar, apaixonado pelo direito, atuante na vida da faculdade, querido pelos professores. Um verdadeiro talento.

A cada novo semestre, os livros se tornam mais caros e essenciais ao aprendizado. A saída é recorrer a boa e velha xerox, e mesmo assim, as vezes, não se consegue ter acesso a tudo. Corre daqui, corre dali, comer só no transito, entre um solavanco e outro. Cobrança da Faculdade, cobrança do emprego, cobrança da família, da sociedade. E estágio que é bom, nada.

Diferente dos colegas de faculdade, não pode deixar de trabalhar para se aventurar em estágios voluntários na Defensoria Publica ou no MP. A falta de oportunidades, muitas vezes lhe tira da disputa por uma vaga em um escritório explorador (condição que ele aceitaria de bom grado). Nos grandes e imponentes escritórios ou nos principais órgãos públicos do judiciário, uma vaga não passa de sonho...Na porta de entrada ou nos caminhos transversais que levam a grandes bancas e excelsos órgãos, está o crivo do compadrio, da consanguinidade, da hereditariedade, do quem indique. Essa é a face oligárquica do nosso direito.

Mais uma madrugada de muito estudo e pouco descanso, de estudo desmotivado pela falta de acesso a um estágio que lhe possa proporcionar a porta de entrada no mundo do trabalho. É nessa madrugada tortuosa o futuro ‘Doutor’ Elano, se rende ao sono e cochila entre os livros. E questionando a si mesmo sobre se tudo aquilo valia a pena? Onde estava o talentoso? Num subemprego. E o fanfarrão? Na melhor banca da cidade. E o analfabeto funcional? Na Procuradoria Federal. Essa é, mais uma vez, a face desumana, oligárquica e familiar do Direito. Acorda com o livro na mão, e se depara com a seguinte epigrafe: “Se o Direito renuncia a luta, renuncia a si mesmo’. Renovado com as palavras de Ihering, ele desperta para mais um dia de batalha, lutando pelo que acredita, com a fé de uma criança. Mesmo sem banca ou ilustre sobrenome.

Rio de Janeiro/2012

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